Ana Cañas – Todxs (2018)

Por Alexandre Matias

Ana Cañas vem sorrateira sob um teclado elétrico quente que vai desenhando um
ambiente que simultaneamente soa suntuoso e aconchegante.
Baixo e beat eletrônico surgem milimétricos, marcando o tempo à espera
de algo tenso que parece se avizinhar. A cantora e compositora paulistana entra
sussurrando e gritando a letra de “Declaro My Love”, soul de lavar a alma que compôs
com Arnaldo Antunes. É o início de Todxs, seu quinto disco, seu trabalho mais ousado
e o melhor álbum de sua carreira, que muda completamente o patamar onde ela está
atualmente.

O clima romântico cai por terra logo na segunda faixa, “Eu Dou”, quando ela muda
completamente o rumo do álbum, colocando o dedo em várias feridas comportamentais,
cuspindo frases que sintetizam os interesses que coloca em jogo no álbum: “Dou uns
pega, dou uns trago /Nas idéia, dou um trato / Dou pros lek, dou pras manas / Corpo
laico, a gente ganha / Dou uns beijo, uns abraçaço / Demorô, bora orgasmo / Quatro e
vinte, tô brisando / Tiro a zika e saio andando.” O groove, desenhado mais uma vez pelo
teclado, desta vez conta com scratches de uma vitrola para sair do clima intimista
da faixa de abertura – afinal é uma canção que fala, sem meios termos,
“sou a buceta, não o caralho”.

A faixa-título, que conta com a participação do rapper Sombra, do grupo SNJ,
confirma a suspeita: Todxs é um disco minimalista na sonoridade, delicado e sutil,
embora tenha peso e groove. Esta aura musical é traduzida também nas letras,
concluindo um processo de dois anos desde que ela começou a pensar no disco
que sucederia seu Tô Na Vida, de 2015.

Ana começou a entender melhor o rumo que iria seguir a partir de seu envolvimento com
o rap e com causas sociais. O marco deste envolvimento é o single “Respeita”, lançado
no ano passado, em que ela rimava pela primeira vez e convidava a dupla Instituto (que
revelou Sabotage, entre outros nomes do gênero) para produzi-la. Mas mais do que um
rap, “Respeita” era uma conexão que Ana fazia com sua própria feminilidade e começar
a levantar a bandeira do feminismo e traçar vínculos com movimentos negros,
sem teto e de periferia.

Todxs também foi uma oportunidade de Ana se reencontrar como novos e velhos
conhecidos, como Tim Maia, Itamar Assumpção, Carlos Posada e Chico Chico.
O síndico ressurge em outro momento romântico do disco, na versão que Ana
fez para “Eu Amo Você”, que foi eternizada por Tim. Já Itamar vem junto com Chico
Chico, filho de Cássia Eller e novo parceiro de Ana,com quem tem feito shows em
parceria (num destes, inclusive, conheceu o rapper Sombra, que chamou para rimar
no disco). Chico e Ana consolidam este laço com a irresistível “Tua Boca”.
O novo cantor e compositor Carlos Posada também é agraciado no disco com
seu tocante poema “Tijolo”.
Mas são as novas canções de Ana Cañas que dão a cara do álbum. “Eu Dou”, “Todxs”,
“Tão Sua”, a didática e hilária “Lambe-Lambe”, “Independer” (outra parceria com Arnaldo
e Taciana) e o hit “A Onça e o Escorpião” mostram a cantora completamente à vontade
com sua nova faceta, segura de si e de suas ideias, dando as cartas e determinando
as regras de seu próprio jogo.

Todxs consagra a maturidade dela tanto como cantora, compositora e personalidade
pop e ela está pronta para enfrentar os dragões da maldade que aparecerem
em seu caminho (coitado deles).
Ana Cañas não está pra brincadeira – seu sorriso de canto e o olhar penetrante
são apenas a tradução de canções prontas para conquistar um novo público.
Não mexe com ela!

Alexandre Matias é jornalista, curador musical e diretor artístico