Ana Cañas – Tô Na Vida

Disco novo – o 4o. de estúdio – e motivação inédita: realizar a essência.
Pode parecer estranho (especialmente para um público que se afinou com o
que fiz até agora), mas para mim, a ‘essência’ ainda não havia se revelado – ao menos por completo.
No entanto, qual é o caminho que leva o artista a se realizar na sua forma mais
singular, única, idiossincrática e poética?
O que você vai dizer e que realmente PRECISA dizer?
Como começar? Por onde começar? Começar?
Estrada sem volta, risco máximo, sem meios-caminhos ou em cima dos muros?
E foi justamente esse desejo consciente que me despertou para um novo
momento e iluminou o lugar em que me encontrava.

Considerei esse disco uma espécie de momento definitivo, um tudo ou nada,
um vai ou racha no sentido do ser / de ser, do estar-fazer.
Comprometimento total para uma possível contribuição real.
Louca? Talvez.
“Você é bicho de palco.” – disse-me, certa vez, Ney Matogrosso.
E é isso mesmo.
Para mim, o centro de tudo sempre se resumiu a apenas esse momento.
E talvez por isso, a falta de verticalidade na feitura dos discos
anteriores, acabasse por cobrar a sua conta.

Eu sabia que, que no descompasso irregular de minha própria obra, eu ainda
não havia mergulhado o suficiente no ato de escrever, compor, arranjar, gravar…
enfim, amalgamar canções – ou “almagamar”.
Um ano de ânsias e insônias e umas 30 canções depois, cheguei a esse novo – e decisivo – lugar.
Me lembro de comentar sobre esses desvarios com o Marcelo Jeneci e ele sabiamente me dizer:
“Ah, que massa! Então agora você está fazendo um disco.”
Claro que o convívio com o Lúcio (Maia – produtor) me fez perceber que já
passava da hora de eu me comprometer de maneira radical com um disco.
Afinal, o cara faz isso há 25 anos.
Eu não.
Eu realmente não sabia o que era isso.
Então dessa vez, foi tudo diferente.

O primeiro grande passo foi perceber que se cercar de pessoas experientes,
maduras e talentosas é um passo certeiro na busca, no processo.
Ninguém constrói nada sozinho.
E pra minha sorte, estavam ao meu lado, além de Lúcio, os amigos Dadi, Arnaldo
Antunes e Pedro Luis, os engenheiros Mario Caldato e Fernando Sanches e
ainda os músicos Fábio Sá, Betão Aguiar e Marco da Costa.
Todos cientes da minha luta pessoal no comprometimento fa-tal com a tal ‘busca
pela essência’.

Gravamos tudo ao vivo. Power trio. Live. Como antigamente. Roots.
Um som que vaza no outro, microfones que capturam o som da sala toda, dos
outros microfones e dos amplificadores.
Prazer total. Caos. Delírio-delícia. Alma.
O repertório ficou entre as canções de rock que rascunhei ao longo de 2014 e
algumas baladas pop, com influência da soul music americana.

Um disco – o primeiro – totalmente autoral.

Lúcio me apresentou um universo infinito de canções, arranjos, temas,
atmosferas. Décadas e décadas de som.
E eu que achava que não sabia nada, agora tinha certeza.
Madrugadas trocando ideia… muita ideia sobre o que significa você encontrar “o seu som”.
Foi maravilhoso. Um longo e tortuoso processo com final feliz.
“Se tem dor, tem evolução.” – me disse Marina Lima. Outra frase valiosa dela:
“Pare de musicar seus poemas, Ana. Canção é melodia!”
Tá certa. Certíssima.

Poderei um dia olhar para trás orgulhosamente e dizer que ‘eu fiz um disco que gosto’?
Sim!
Hoje eu posso.
Eu adoro esse disco.
Simplesmente porque estou ali pra valer.
Sinto que a equação se resolveu.
E a alegria de saber-se é transcendental.
O que eu sou, ali está.
Sei de mim.
Sou.
Estou.
Tô.
Agora eu tô.

Na vida.